Cícero Lucena e o museu de grandes novidades
setembro 21, 2026
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Jairo Alves
Pronunciamento anunciado como uma pausa na campanha trouxe segurança para o centro do discurso, mas boa parte das propostas já havia sido apresentada pelo candidato
Por Jairo Alves
Na noite de domingo (20), Cícero Lucena criou uma pequena suspensão no roteiro da campanha no estado de José Américo de Almeida. O candidato ao Governo da Paraíba anunciou que faria, na manhã desta segunda-feira (21), um pronunciamento oficial, interrompendo momentaneamente a agenda eleitoral para falar diretamente aos paraibanos. A forma do anúncio produziu expectativa entre jornalistas e observadores da política paraibana: o que viria?
Veio a segurança pública.
No pronunciamento, Cícero afirmou que a Paraíba está “sem governador”, associou a afirmação aos recentes episódios de violência na Grande João Pessoa e direcionou a cobrança ao governador Lucas Ribeiro, candidato à reeleição. Também anunciou que, se eleito, pretende instalar uma sala de situação de crise ligada diretamente ao gabinete do governador, reunir a cúpula da segurança e integrar as forças policiais.
Há, porém, um detalhe curioso nessa história. O que foi apresentado na manhã desta segunda-feira como uma manifestação capaz de interromper a campanha já vinha sendo dito, em diferentes formatos, pelo próprio candidato.
E é aí que Cazuza entra na conversa.
Em “O Tempo Não Para”, Cazuza e Arnaldo Brandão cunharam uma das imagens mais conhecidas da música brasileira: “Eu vejo o futuro repetir o passado” e, logo depois, a ideia do “museu de grandes novidades”. A expressão tornou-se uma metáfora para aquilo que aparece revestido de novidade, mas carrega elementos que já estavam presentes.
Na política paraibana desta segunda-feira, a metáfora encontra terreno fértil — não porque o tema da segurança seja irrelevante, mas justamente porque ele já ocupava espaço no discurso de Cícero.
A novidade já estava no discurso
Em julho, durante sabatina da CBN e do Jornal da Paraíba, Cícero já havia prometido elevar a remuneração dos policiais ao que chamou de “melhor salário do Nordeste”. Na mesma ocasião, apresentou a proposta de criar seis centros de monitoramento e ampliar o sistema de câmeras de segurança.
No início de setembro, durante debate, a promessa salarial voltou a aparecer. Cícero também falou novamente em seis centros de monitoramento, 5 mil câmeras e delegacias especializadas para atendimento às mulheres funcionando 24 horas.
Em 8 de setembro, o candidato participou de uma sabatina promovida pelo Fórum de Segurança Pública e voltou a afirmar que o Estado estaria falhando no combate à violência. Na ocasião, reiterou a promessa de melhor salário do Nordeste para as forças de segurança, além de concursos e novo plano de carreira.
No dia 18, antes mesmo do pronunciamento desta segunda-feira, Cícero já havia apresentado a criação de um Gabinete de Crise da Segurança Pública, com a proposta de acompanhar indicadores, integrar informações das forças policiais e coordenar respostas diante do agravamento da criminalidade.
Portanto, quando o vídeo desta segunda-feira foi ao ar, havia pouco de absolutamente inédito no conteúdo programático. A sala de crise já havia aparecido. A valorização salarial dos policiais já havia aparecido. A integração das forças já havia aparecido. O monitoramento tecnológico já fazia parte do repertório eleitoral.
O próprio site oficial da campanha lista, entre as propostas para segurança, 5 mil câmeras com inteligência artificial e seis centrais de monitoramento, além de delegacias da mulher 24 horas.
O que mudou, então?
Mudou o enquadramento.
Desta vez, Cícero não apresentou apenas propostas. Ele construiu uma fala de cobrança política direta. O alvo foi Lucas Ribeiro.
“A Paraíba está sem governador”, afirmou o candidato, antes de responsabilizar o chefe do Executivo pela situação da segurança. Em seguida, pediu que Lucas “assuma sua responsabilidade”, participe dos debates e discuta os problemas do Estado.
A frase é, portanto, uma novidade retórica mais evidente do que propriamente programática. O discurso transformou propostas que já circulavam na campanha em uma peça de confronto direto com o adversário.
Isso não significa que a proposta de uma sala de crise seja inexistente ou irrelevante. Significa apenas que, cronologicamente, ela não nasceu nesta segunda-feira. O anúncio ganhou uma nova embalagem, um novo momento e uma nova carga política.
E talvez seja justamente aí que esteja a ironia do título.
O museu
Um museu é, por definição, um lugar onde coisas de diferentes épocas permanecem expostas. O “museu de grandes novidades” de Cazuza funciona justamente pela contradição: aquilo que parece novo pode ser apenas algo antigo apresentado sob outra luz.
Na campanha de Cícero, a segurança pública já vinha sendo apresentada como uma das áreas centrais de seu programa. O candidato tem propostas formalizadas para o setor e já as havia levado a sabatinas, debates e eventos públicos. O pronunciamento desta segunda-feira reorganizou esse repertório e acrescentou uma frase politicamente mais contundente contra Lucas Ribeiro.
A diferença, portanto, está menos no o quê e mais no como.
O suspense criado na noite anterior elevou a expectativa. A pausa anunciada na campanha sugeriu que viria algo extraordinário. Na manhã seguinte, o eleitor encontrou segurança pública, uma sala de crise, integração das forças policiais, valorização salarial e críticas ao governador — temas que já faziam parte da campanha.
É como entrar no museu esperando uma obra inédita e encontrar peças conhecidas em uma nova exposição.
Cazuza talvez explicasse isso melhor: “Eu vejo o futuro repetir o passado.”
Na política, entretanto, a repetição também pode ser estratégia. Uma proposta não deixa necessariamente de ser relevante porque já foi apresentada. Candidatos repetem suas ideias para fixá-las, reforçar prioridades e alcançar públicos diferentes. O ponto jornalístico está em separar o que é nova proposta, o que é reapresentação de uma promessa existente e o que é mudança de tom político.
No caso do pronunciamento de Cícero Lucena, as três coisas não parecem ocupar o mesmo espaço.
A novidade esteve, sobretudo, no palco.
E o museu, ao menos nesta segunda-feira, já tinha algumas peças conhecidas no acervo.
Por @jairoalves.87
Jairo Alves
É Editor do Seliga Litoral, formado em Jornalismo pela UFPB e mestrando em Jornalismo pelo PPJ da mesma Universidade.

